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Blog EntryReinventando sentidos, de Marcus ViníciusApr 20, '08 12:55 AM
for everyone

Na entrada da cidade, junto ao fluxo portuário, tudo se perde de vista. Silêncio. O tempo parece parar. Mas a vida na cidade contemporâena não permite. Tudo sufoca. O sol brilha forte. E o mar balança vagarosamente. Sinto-me forte, mas também frágil. Sujeito às intempéries. O cansaço me consome, mas há a necessidade de reinventar os sentidos. Sublime.

Minha arte me desestabiliza. Perco a identidade e é preciso criar outra. Re-fazer. Talvez registrar novamente. Me misturo no mundo. Quero e sinto que é necessário criar formas de saber o que é meu, o que me pertence, porque meu próprio corpo tende a se misturar com o ambiente em que estou. Eu não quero apresentar o mundo como está e criticá-lo. Isso não é necessário porque as pessoas já fazem isso o tempo inteiro.

Quero criar possibilidades, novas formas de me relacionar com o mundo como ele é, e transformar o que está ao alcance do meu corpo. Criar novas formas de se relacionar e (re) conhecer momentos sublimes. Isso é o importante. O sublime está em tudo e eu que não sou capaz de reconhecer sempre.

Quero experimentar, sentir, vivenciar e propor o prazer ligado ao corpo, ao tocar a planta, cheirar e se relacionar mais intensamente com as pessoas e com tudo que existe. O que quero com a arte é resgatar a capacidade de sentir prazer e conectar-se com si próprio. E assim conectar-se com o mundo porque existe algo em mim comum a tudo que existe.

Quero falar do que existe, mas não está aqui, ou pelo menos, que as pessoas não reconhecem. Existem muitas coisas que não vemos porque não há repertório em nós para reconhecer aquilo. Escolhemos para onde olhamos. Quero escolher certo. Olhar para o que me faz bem. E buscar as minhas conexões com o sublime.



Marcus Vinícius
Junho 2007




O silêncio é pior que o conflito¹

Propus a realização da Ação Artística de Ocupação Urbana Experimental [Dimantina], durante a residência artística no projeto ACasa, criando um instante para reflexão e introspecção diante da efervescência cultural da cidade nos dias de Festival de Inverno.

Nesta ação reflito sobre as relações dos transeuntes com o espaço, com os caminhos que seguem no cotidiano e as suas práticas na cidade. O lugar escolhido foi a Catedral de Santo Antônio da Sé, no centro histórico de Diamantina, de modo a despertar a atenção do público para o patrimônio construído, seu aspecto histórico e simbólico, suas condições usos e apropriações.

A possibilidade de pensar em conjunto com os artistas durante a residência n’ACasa foi reforçada pelo fato da própria ação artística poder ser acompanhada e debatida com qualquer pessoa que assim o desejasse.

Com esta ação a cidade é compreendida como um espaço para o diálogo permanente, dinâmico, e aberto às múltiplas participações.

Quero (re)conectar o corpo. Estar aqui, trocando informações com os outros mundos (corpos), estando de fato aqui. Comunicar-me com as pessoas e me permitir fazer o proibido não dito.

Existem muitas coisas não ditas. Calar... O silêncio é pior que o conflito. Quero falar do silêncio. O proibido não é dito, porque não é necessário seja dito. Ora se já está tão preso, colado nos corpos, não precisa ser falado. Quero questionar o proibido. Quero falar da privação a que os corpos estão dispostos. Corpos que dormem acordados.


Marcus Vinícius
Julho 2007




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¹ Texto publicado no Informativo do Projeto ACasa, ano 2 número 3 - Diamantina, Julho de 2007 - Diretório Acadêmico da Escola de Belas Artes da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais.



Descobrindo as Ilhas da Pólvora

Riscos, resíduos, resquícios

“Viver é muito perigoso” [i] dizia o Rosa pela boca de Riobaldo, o Tatarana, rápido no gatilho como seu criador o era na invenção verbal. Fazer arte também. E muito arriscado. Porque se não for arte, não é nada: fumaça que se dissipa no vento, salto no vazio, que, às vertigens abismais iniciais, sucederá o encontro frustrado com o chão duro da previsibilidade. Como descobrir a pólvora: realizar o óbvio, aquele sentido que segundo Barthes, “vem à frente” [ii]  e, terra descoberta, já está lá à nossa espera.

Marcus Vinicius, como Marco Pólo, aceita o desafio desta aventura perigosa. Entre o transe e o jogo, o risco e a queda, convida o acaso para dançar, brincar com fogo e fazer artes com ele. 

Na série de desenhos, a pólvora incandescente, co-autoral, incontrolável e imprevisível, desvela, descobre as cartografias de novos mundos: ilhas, penínsulas, golfos, enseadas e baías, acidentes geo-gráficos que devoram o papel, lambendo sua pele com língua de fogo e fazendo surgir reentrâncias e saliências, resíduos e resquícios da terra virgem originária – a folha em branco -, para fascínio e deleite, penso, do próprio descobridor, MV, nesse momento único, de revelação, do processo de criação.

Dos mapas à Ilha

São primeiros ensaios, no entanto, estes mapas, que preparam a grande aventura de descobrimento que se seguirá. Arriscada aventura: a conquista da Ilha da Pólvora.

Isola. Isla. Ilha. Na esperança de uma cura incerta, se não, na maioria dos casos, impossível, era isso que hansenianos e tísicos – ou mais cruamente: leprosos e tuberculosos encontravam na ilha, desde que fora destinada a recebê-los: isolamento.

A bordo de um pequeno barco e munido apenas de uma pequena caixa que aos poucos revelar-lhe-á  seus verdadeiros poderes, Marcus Vinicius chega à ilha. Não sabe ainda, mas lá irá enfrentar os voláteis mas perigosos calibãs espirituais, os gênios residentes (“as pessoas não morrem. Ficam encantadas”[iii]), contando unicamente com o apoio de sua pequena equipe de trabalho.

Lá, joão e maria, guiado exclusivamente por intuição e sensibilidade, delineará um trajeto que irá se definindo ponto a ponto por pequenos círculos desenhados com pólvora em  lugares específicos.

Se nos desenhos, figuradamente, antecipava protegido as surpresas da descoberta e da invenção, aqui, na ilha, MV se expõe às vicissitudes e acidentes do destino que se propôs enfrentar.

Agora, nu de corpo e alma, vulnerável como um diadorim sem disfarces,  vivenciará a experiência explosiva da criação: como atóis de coral incandescentes, estes, de pólvora, anéis à espera de saturnos devoradores, invocarão as chagas e sufocamentos dos antigos habitantes da ilha, incendiando-se para libertá-los talvez – o que sabemos? – de suas cadeias de perene sofrimento.

À beira do transe MV cai: uma explosão especialmente forte e imprevista o derruba ao chão, deixando marcadas em sua pele, resíduos do risco vivido.  Dirige-se então ao cais em ruínas, resquício do antigo portal de desembarque, para realizar uma última combustão. Lá, me diria depois, mostrando-me as fotos, viu a fumaça resultante retornar à ilha: “nada do que não pertencesse à ilha sairia de lá”, me diria, querendo, no entanto, dizer o contrário: “nada do que pertencesse à ilha sairia de lá”. Ato falho a meu ver significativo. Mais até, revelador: parece apontar para a difícil posição da arte e do artista em relação a estas outras “ilhas”: até que ponto o Einfühlung que nos projeta sobre elas, pode nos confundir com e até nos levar a nos perder e aprisionar nelas?

Do transe ao jogo, será preciso sair de si para receber o Outro?

Não: às ilhas o que são das ilhas. É preciso levantar e estar em si para aceitar o Outro sem se perder nele. Prósperos, libertar Ariel, e compreender as tempestades.

Que se dissipem as fumaças dos isolamentos passados, presentes e futuros.  Que lancemos pontes, aproximemos ilhas e arquipélagos, mas que possamos sempre retornar, são e salvos ao nosso continente: o da arte.

Planejando sempre novas descobertas e descobrimentos.

Mesmo que seja muito perigoso. Como a vida.

E arriscado. Como a arte.

Ricardo Maurício Gonzaga

19 de Novembro de 2007 [iv]

 



[i] Rosa, Guimarães, “Grande sertão: veredas”, Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

[ii] Barthes, Roland, “O terceiro sentido” in “O óbvio e o obtuso”, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

[iii] Rosa, Guimarâes, discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, 16 de novembro de 1967.

[iv] Por coincidência – acreditem-me – ou sincronicidade, a quarenta anos do nascimento (perdão, ato falho: falecimento) de Guimarães Rosa.




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